Ter um PhD ou um DD é garantia de cultura?

Ter um PhD ou um DD é garantia de cultura?

Quem deseja conseguir um título de “Doutor”, na Alemanha, é obrigado a fazer um ano de mestrado e três anos de doutorado. Aqui no Brasil, qualquer rábula recém saído de uma faculdade, mesmo escrevendo “progresso” e “bolsa” com “ç”, e “exceção” com quatro “ss”, tem o direito de usar um “Dr.” antes do nome e até mesmo no endereço eletrônico.
Um irmão pejado dos títulos supracitados andou lendo um dos meus artigos publicados na Internet e logo me escreveu assim:
“Amada, eu li um artigo seu no site ..., e te pergunto: porque todo tipo de igreja, seja lá qual for, tem sempre que envolver dinheiro, misturar Deus com dinheiro!
Gostaria de estar em contato com você!
Dr. Fulano.”
Como ele usa um “Dr.”, também, no endereço eletrônico, achei o caso interessante e respondi assim:
“Amado irmão:
Estou enviando o meu livro “O Dízimo do Dízimo”, no qual você poderá ver como alguns pastores são ambiciosos.
Sou uma cristã bíblica, em luta contra os pastores que fazem os crentes de tolos, cobrando o que não devem, como, por exemplo, o dízimo.
Tenho vários artigos e livros evangélicos à sua disposição, no computador. Se me enviar o seu endereço postal (você tem o título "Dr." em Medicina ou em outra profissão?) eu lhe mandarei este material. E nada lhe custará, pois não costumo ganhar dinheiro à custa do Nome Santo do Senhor Jesus Cristo.
Abraço
Mary”

A resposta veio rápida:

“Prezada irmã em Cristo
A Paz do Senhor Jesus Cristo
Bem, meu nome é... Sou Psicanalista Clínico formado pela Escola Superior de Psicanálise e Orientação, Bacharel em Teologia, Mestre em Teologia do Novo Testamento, Doutor em Teologia, Doutor em Divindade, Pós-doutor (Ph.D.) em Psicologia da Religião, Pós-doutor (Ph.D.) em Psicologia Pastoral Clínica (FACTEL/INTE-RJ, ATEBEND/MIGD-SP, FATEFIC-SP), Homeopata Clássico (Universidade Federal de Viçosa/MG), mas a cima de tudo uma pessoa que procura servir ao Senhor em espírito e em verdade.
Sempre relutei quanto ao "pagamento dos dízimos" nas igrejas ditas cristãs, e isso me deixa muito triste pois o povo carente de muitas coisas vão para esses estabelecimentos à busca de Deus e acabam saindo de bolsos vazios, confiantes na palavra desses "pastores" que dizem: "o Senhor vai multiplicar 100 vezes mais", "que o Senhor vai abrir a porta dos céus e derramará bençãos sem medida", "e por vossa causa (quem deu o dízimo) repreenderá os devoradores (demônios)".
E continuou no mesmo ritmo de assassinato à língua pátria.
Depois de saber quantos graus de doutorado tem esse irmão, relutei em lhe enviar meus escritos. Sou uma iletrada, comparada ao mesmo, sem grau algum de doutorado, e gostaria de ficar confinada à minha insignificância cultural. Contudo, nunca volto atrás na palavra empenhada, pois sou uma nordestina de fibra e lhe enviei um CD com farto material.
Espero que, no futuro, ele aprenda a colocar pontuação e acentuação nas palavras, a não errar na concordância verbal (como “o povo vão”) e a não misturar tratamentos como “tu” e ”você”, segundo tem feito em seus e-mails.
Infelizmente, até mesmo uma pessoa com tantos graus de doutorado consegue vacilar no vernáculo, pois as universidades e seminários teológicos estão repletos de professores graduados, sem o devido preparo para instruir os alunos de modo adequado ao ministério de cada um.
Retirar o Latim do currículo escolar foi uma das MAIORES ASNEIRAS dos líderes da Educação neste país, impedindo que os alunos das escolas secundárias e das universidades aprendam a escrever corretamente a nossa língua. O conhecimento do Latim, que todos consideram, erroneamente, uma língua morta, continua sendo absolutamente necessário para se escrever bem o Português.
Pior ainda foi o caso do autor de um texto apologético, ostentando o nome daquele personagem bíblico, que mandou o sol parar, a fim de vencer a batalha contra os inimigos de Israel (Js. 10:12-13). Ele me enviou um texto de 20 pp., o qual me levaria apenas uma hora para ser lido, porém me tomou seis horas de verdadeiro suplício, por causa dos erros de concordância verbal, de tratamento e da falta de pontuação e acentuação. Marquei tudo em vermelho e devolvi o texto ao autor, com umas 100 correções. É claro que o "escritor" não gostou da minha intromissão como revisora, afirmando que havia mandado o texto apenas para eu ler e dar meu parecer e não para ser corrigido, exigindo, assim, meu pedido de desculpas...
Não gosto de ler esses textos em Português, porque, com honrosas exceções, eles são mal escritos e me cansam a beleza octogenária, além de nada me acrescentarem, teologicamente. E, por falar em honrosas exceções, quero citar alguns dos excelentes autores de textos que eu tenho lido: o pastor da PIBT, o Pr. Wagner Araújo, PAC, Pr. Dri, Mil e tantos outros, que são impecáveis na redação. As “filhas”, em geral, também são excelentes no manejo da língua de Camões, a começar da filha alemã, que ensina Português no país de Goethe.

Mary Schultze – www.maryschultze.com

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