Livro: Os muitos anos me fazem recordar - Parte II
Em poucos anos, crescemos profissionalmente, mas nossa liberdade diminuiu. Eram tantos os compromissos assumidos que já não tínhamos mais tempo de viver plenamente, como quando éramos jovens, com pouco dinheiro, economizando arduamente para umas férias.
As compensações da vida vêm através dos filhos e dos netos. Sempre gostei de uma vida simples, conforme diz o salmista, no Salmo 131:1-b: “Não me exercito em grandes matérias, nem em coisas muito elevadas para mim”.
Três Marias - Viajávamos para Goiânia, em 1964. Schultze ia correndo a 100 Km. em nossa Vemaguete cinza bruma, novinha em folha! A meta era Brasília, mas resolvemos ir antes a Goiânia, para depois ficar mais tempo em Brasília, cidade que ele já conhecia, mas eu não.
Lembro-me que, logo depois de Belo Horizonte, por engano, ele tomou a estrada de Monlevade e nos perdemos. Até que um furacão nos arrastou para fora da pista. Paramos, consultamos o Guia 4 Rodas, e voltamos à BR. 040, ou BR. 3, como era chamada. Lá pelas oito horas da noite, chegamos a Três Marias, sob uma chuva fina e persistente, e fomos para um hotel. Tomamos um banho quente e, depois de um jantar frio, caímos na cama, completamente exaustos.
Às duas horas da manhã, acordei com um baque surdo no banheiro. Olhei a cama do Schultze e observei que estava vazia. Corri para socorrê-lo e encontrei-o caído de bruços, em cima do bidê, com um filete de sangue escorrendo na testa. Chamei-o e não obtive resposta, pois havia perdido os sentidos. Passei momentos de extrema angústia, tentando reanimá-lo, depois levei-o para a cama, apoiado em meu braço. Fiz-lhe um bom curativo e, logo em seguida, ele adormeceu. Tinha um problema neurológico de antes da II Grande Guerra Mundial, quando, aos 17 anos, fora escoteiro na Hitler Jung e caíra de uma árvore, resultando numa epilepsia traumática. Por isso, ele costumava desmaiar, de repente.
Tentei dormir após o acidente no hotel, mas a sujeira do banheiro me deixara nervosa. Levantei, peguei o pijama do Schultze, que fora trocado por um limpo, já que estava ensopado de sangue. Fui limpando o banheiro com o mesmo, lavando-o sempre, até que tudo ficou em ordem. Gastei quase um tablete de sabão de coco. Depois me deitei e dormi um sono agitado, cheio de pesadelos.
No dia seguinte, os garçons nos olhavam intrigados, tentando adivinhar o tipo de briga que havíamos tido no quarto do hotel. O Schultze tinha um rombo na testa, coberto de gaze e esparadrapo, enquanto eu estava com uma tremenda cara de cansaço. Fomos visitar a Represa e, logo em seguida, prosseguimos viagem.
Ele voltou a dirigir na base de 100 Km. horários e eu esperava a morte em cada curva. Olhava para Margarete, com apenas oito anos, e pensava, amargurada: “Coitada da minha filha! Tão pequena, tão linda e vai morrer hoje”. Tentei rezar (era católica), mas a tensão era tanta que as palavras saíam sem nexo, desprovidas de fé e esperança. Naquele dia, o único sentimento que eu ainda podia conservar dentro do meu turbulento coração era o amor. Amor por meu marido, amor por minha filha, amor pela minha vida. E talvez tenha sido esse amor que nos conservou vivos, porque ele vinha do próprio Deus! Ele me havia predestinado, conforme Efésios 1:3. Só que eu ainda não o sabia...
Conseguimos chegar vivos em Goiânia. Tomamos banho, jantamos, depois fomos dar um passeio pelo centro da cidade. Foi a primeira vez que eu comi feijão tropeiro e gostei. A cidade também me agradou. Era limpa, bem traçada e aconchegante. De repente, as comportas da minha represa emocional se abriram, com mais intensidade que a de Três Marias. Chorei, chorei demais... Até me desfazer daquela tremenda carga emocional.
Naquele tempo, eu ainda não havia lido as Cartas de Paulo. Hoje releio, pela centésima vez, os versos 31-32 do oitavo capítulo de Romanos: “Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?”
Por isso eu sou louca por Paulo. Realmente, Deus foi por mim, quando vi a morte, tantas vezes, com o Schultze dirigindo a 100-1230 km.,sujeito a um desmaio repentino... Ainda hoje, porém, estou viva e inteira. Porque esse Deus maravilhoso, que não poupou o Seu próprio Filho, tem-me poupado sempre, através do Seu Filho!
Se eu pudesse abrir as mentes das pessoas que eu amo e colocar lá dentro a Verdade do Evangelho de Cristo! Seria bom demais! JESUS disse que, ao regressar a este planeta, não encontraria mais fé... Então, Ele deve estar vindo por ai. A fé é coisa tão rara, que se alguém a possui, deve louvar a Deus, desde o raiar do dia, até o sol posto...
Viagem ao Chile - Em 1967, depois de uma viagem à Europa, resolvemos conhecer o Chile, indo a Santiago de avião, voltando de trem via Mendoza, para Buenos Aires, e depois passando em Montevidéu. Nós já havíamos estado no Paraguai, Uruguai e Argentina, alguns anos antes. A viagem de trem pelos Andes, de Santiago até Mendoza, foi muito interessante. Na fronteira dos dois paises, observamos o Pico Aconcagua, coberto de neve em pleno verão!
Em Mendoza, fomos almoçar num restaurante alemão - "Fritz und Franz". O garçom estava ocupadíssimo e demorou muito a nos atender. Estávamos com muita fome e foi Margarete (9 anos) quem teve a ideia. Comemos todos os palitinhos de queijo, salsicha e presunto que os clientes anteriores haviam deixado na mesa. Mais tarde, quando fomos pagar o almoço, os palitinhos estavam na conta e reclamei, pois meu marido não entendia o Espanhol. Então, o garçom explicou que os clientes anteriores tinham saído sem pagar.
Em Mendoza, assistimos ao Carnaval da Uva. Durante o desfile, as moças passavam em carros alegóricos e jogavam cachos de uvas em cima das pessoas. Havia caixas de plástico contendo três quilos de uvas, vendidas a Cr$ 1,00. Meu Deus, como eu me empanturrei de uvas em Mendoza. Acho que foi, a partir desse tempo, que fiquei exigente, pois hoje só aprecio uvas sem caroço.
Viagem à Europa (Maio-Junho de 1967)
Em maio de 1967, fomos à Europa, juntos, pela primeira vez. Schultze, depois do casamento, já havia ido duas vezes e tivemos de tirar Margarete da escola, querendo aproveitar a melhor época - o verão. Estivemos em LISBOA, PARIS, LONDRES, BREMEN, HAMBURGO, COPENHAGUE, BERLIM, MUNIQUE, STUTTGART, TUBINGEN e FRANKFURT. A viagem durou dois meses e Margarete resolveu seguir o exemplo do pai, começando um diário, em Paris.
Lisboa - (De 16 a 19/05) - Cidade pequena, limpa e aconchegante! Os Portugueses recebiam os brasileiros com o maior carinho e boa vontade. Chegamos ao meio dia de Lisboa pela VARIG e fomos para o Hotel Atenas, onde tínhamos apartamento reservado, à Rua Luciano Cordeiro, 98. Era um hotel modesto, porém limpíssimo. O café da manhã era muito farto. Os garçons eram muito gentis, como, aliás, todos os portugueses em relação aos turistas. [Nota: Margarete, no primeiro dia, manifestou-se: "Mamãe, aqui falam uma língua parecida com a nossa, não é?"
Lisboa tem lindas praças, todas limpas e floridas. A temperatura era de 15 graus e soprava um vento gelado, cortando o nariz e as orelhas da gente. Cearense de Crato, eu tinha de sofrer com aquele frio! Meu nariz começou a escorrer, dando uma boa desculpa para eu comprar aqueles lencinhos de cambraia de linho bordados na Ilha da Madeira. As cerejas que víamos nas lojas de frutas davam água na boca. Margarete liquidou os seus escudos, comprando dúzias de cerejas para nós. Passeamos muito no Metrô, que tinha apenas três linhas. Era limpíssimo - Made in Germany! Dava gosto ficarmos sentados naqueles bancos confortáveis.
Os portugueses eram lindos - os homens muito mais do que as mulheres, que em geral eram gorduchas e meio deselegantes, mesmo usando belos costumes. Acho que elas comiam demais e se movimentavam pouco. Mas, que homens espetaculares! Até os operários que trabalhavam nas ruas eram limpos e educados. E quando tomavam o seu almoço, o cheiro de frango assado (com ervilhas amanteigadas, ou preparadas em óleo de oliva) mostrava a diferença entre a marmita “portuguesa, com certeza” e a de feijão preto do operário brasileiro. Por isso, no futuro, eu sempre iria dar comida aos meus empregados... As marmitas portuguesas continham purê de batatas, ervilhas, frango assado, molho branco... Fiquei com água na boca e quase aceitei o oferecimento daquele operário que consertava os buracos de uma rua, próxima ao hotel! E ainda se falava mal do Salazar, hem? Como dizia o Schultze: “Uma ditadura suave funciona melhor do que uma democracia desorganizada!”
Paris - Margarete escreveu no caderninho:
"Hoje visitamos muitos lugares, mas o mais famoso foi o MUSEU DA LUVA. Nome esquisito, porque todas as mulheres só entram ali de luvas, até mamãe e eu. Não achei grande coisa o tal Museu. O de Petrópolis, que eu já visitei muitas vezes, é muito mais bonito. Tem coroa de ouro e pedras preciosas e este daqui não tem nada disso. Só uns quadros e estátuas. O Quadro mais olhado de todos era o de uma mulher meio gorda, com cara cínica como o nosso pedreiro Forcatinho. Ela é chamada Mona Lisa. Uma estátua sem braço meu pai disse que se chamava a VENUS DE MILHO e perdeu o braço num terremoto. Enquanto mamãe olhava os quadros, eu fui com papai tomar uma coca-cola e ele, uma cerveja. Quando a gente voltou, quase não encontramos mais a mamãe, e eu comecei logo a chorar, pensando que ela tinha se perdido. Mas ela não tinha, não! Estava sentada num sofá de veludo vermelho, esperando pela gente. Ai fomos pro hotel e jantamos".
O diário não durou muito. Ela havia herdado a preguiça do pai para escrever e a mesma mania de ler. Em todos os países onde chegávamos, o pai comprava as revistas em quadrinhos que ela pedia. Ficava horas perdidas, "lendo" as gravuras. Quando completou 14 anos, ela já havia lido toda a coleção de Monteiro Lobato, fora muitos outros livros de estórias infantis.
Em Paris, o comprimento dos casacos de inverno havia subido tanto que mal cobriam as coxas das garotas! Do que é capaz a mulher para agradar os ditadores da moda, hem? Ficam ridículas, mas andam na moda. Será que algum dia eu iria andar na moda? Uma coisa eu pensei: jamais vou usar calças Jeans, pois são tão grosseiras e ridículas! Em Paris, eu vi algumas, nos bairros mais avançados... Mas o que me impressionou mesmo foi a minissaia. (Ao chegar em Londres, quase tive um troço, porque lá era o país da minissaia, a terra da Mary Quant).
Tudo em Paris era glorioso demais, desde a comida até os monumentos, que são realmente antigos, belos e dignos de serem vistos. Visitamos o túmulo de Napoleão Bonaparte, o Arco do Triunfo, a Avenida dos Campos Elfseos, a Catedral de Notre Dame, a Catedral do Sacre Coeur, em Montmartre. Vimos a decantada Pigalle, a turma suja e bagunçada do Quartier Latin, a Torre Eifel e tantas coisas - até a Bastilha!
Na Torre Eifel, subimos os 207 degraus do primeiro “étage”, a pé, porque a fila do elevador estava grande e Schultze não teve paciência de esperar. Descemos num bonde aéreo. Nunca vi tantos turistas juntos de uma só vez! Eram centenas ou milhares, visitando todos os lugares aonde íamos. Acho que a maior fonte de divisas em Paris é o turismo, porque era gente que nem se pode contar!
Foi difícil conseguir apartamento com banho em hotel classe média, no centro da cidade. Os hotéis viviam lotados. Paris é a Meca Ocidental da moda e da beleza. Na capital da moda, tomei uma decisão para o futuro. Iria começar a fabricar produtos de beleza, aproveitando os conhecimentos do meu marido, que era perito em Química e Cosmetologia. (Naquele tempo, fabricávamos somente anilinas). E continuei divagando... Quando eu voltar a Paris, da próxima vez, serei uma mulher famosa - pelo menos no Brasil - e quem sabe até mesmo rica! Assim não precisarei procurar um hotel classe média; irei para um do tipo Hilton Paris, etc. [Nota: Não fiquei rica, não voltei a Paris, mas conheci Jesus Cristo como Salvador, onze anos depois, e me senti completa].
Nosso hotel não era grande coisa, mas dava para sobreviver. Era o Hotel Excelsior Opera, na Rua Lafayette, 5, bem pertinho da Ópera. Schultze estava feliz, porque era vidrado em óperas! Agora, poderia assisti-las, toda noite, sem preocupação.
A poucos metros, ficavam as famosas Galleries Lafayette, onde caberiam umas cinco Lojas Mesbla do Rio! Ou da Mappin, de São Paulo! Ou estaria eu exagerando, porque fiquei megalomaníaca em Paris, de tanto ver grandiosidade! Nas Galleries Lafayette, podia-se comprar tudo que se desejasse. Comprei uma porção de perfumes, mas não os mais famosos, que eram caríssimos.
Em Londres, Margarete se sentiu bem. Apesar da chuva constante e da temperatura de 6 graus, visitamos muitos lugares interessantes. Um deles foi o Palácio de Buckingham. Lá, num domingo à tarde, ouvi o zum-zum de que a Rainha ia chegar de um fim de semana, fora da cidade. Combinei com o Schultze e ficamos diretamente no portão da entrada de carros. Daí a pouco, chegou Sua Majestade, num carro preto, vestindo um tailleur cinza muito simples, acompanhada da Rainha Mãe e do Príncipe Charles. O silêncio era completo. Alguns faziam fotos e foi então que Margarete resolveu se manifestar: Começou a pular, batendo palmas e gritando: "A Rainha, a Rainha!". A Rainha ouviu aquela criança estrangeira gritando, sorriu para ela, piscou o olho e acenou. Então, foi-se, vagarosamente. Quando entrou e os portões foram cerrados, Margarete comentou com simplicidade:
- Puxa, mamãe. Como é simpática a Elizabeth Arden!
No dia seguinte, na entrada da Torre de Londres, ela pediu ao guarda para alisar o seu chapéu, que devia ser macio. Traduzi o pedido e o guarda, pondo-se de cócoras, falou: "pode passar a mão". Ela aproveitou e me aconselhou a fazer o mesmo. Aí o guarda levantou-se.
Depois, estivemos na firma Mappin & Webb, onde falei com o Mr. Scarles, que fora meu chefe na Mappin & Webb, no Brasil, nos anos 1950. Em 1967, ele era o Gerente da Mappin & Webb, na Queen Victoria Street. Ele nos mostrou todas as dependências da Loja. As jóias eram lindíssimas, incrustadas em ouro, platina, diamantes, rubis, safiras e esmeraldas! Então fiquei sonhando: Ah! Se eu pudesse comprar uma jóia destas! Um dia, quando eu for uma próspera empresária, vou usar muitas jóias preciosas, pois amo as pedras coloridas! Mas isto, quando eu for uma empresária de sucesso. Nossa firma está em começo, portanto, demos tempo ao tempo. São jóias muito caras para o meu bolso tupiniquim, mas um dia, quem sabe, eu poderei chegar aqui nesta Loja, para escolher um diamante de dois quilates e pagar com um cheque especial de viagem, em dólares! Sonhar não custa dinheiro, por isso estou sonhando!
Hoje continuo vidrada em jóias de pedrarias. Só que, não de ouro e platina, mas de prata, com incrustações de pedras brasileiras. E me sinto realizada, mesmo não possuindo muito dinheiro... Sou feliz... Com Jesus ...
E por falar em dinheiro, uma coisa que observei em Londres foi que, de cada cinco prédios, um era Banco. Até parecia Belo Horizonte! A Regent Street era a rua mais fabulosa de Londres. Nela se encontravam os maiores magazines, joalherias imensas, onde as jóias e pratarias mostravam todo o esplendor de um grande império.
Uma pena que o Schultze não quisesse ir à Itália, para conhecermos o Vaticano! Diziam que as riquezas ali são fabulosas! E que muita gente ficava meio abobalhada, só de ver o luxo! Não entendo como uma Igreja, cuja base é Jesus Cristo, um homem tão pobrezinho, pode ser tão rica! Mas deixemos isso pra lá. Eu estava falando de Londres.
Visitamos a Torre de Londres, onde Margarete fez o guarda ficar de cócoras. Em Londres, o povo tinha mania de dizer "Thank you", a toda instante, mesmo sem razão de ser. Por exemplo, a gente fazia uma pergunta, eles respondiam e diziam logo: "Thank you", sem esperar que a gente agradecesse. Acho que temiam a nossa falta de educação. Quando se pedia uma bebida, o garçom trazia e quando a colocava à nossa frente, ia logo dizendo: "Thank you!".
Visitamos a Tower Bridge, o Parlamento, a Abadia de Westminster, etc. Fizemos um longo passeio pelas margens do Rio Tâmisa. Londres é uma cidade feia e não gostei dela... Porque não gosto de feiura!
Ao contrário de Lisboa, onde a lei mandava pintar os edifícios, cada cinco anos, em Londres devia ser proibido renovar a pintura dos prédios. Até o Palácio de Buckingham era sujinho que só vendo! Fiquei com vontade de oferecer o "Boy", pintor de nossa casa em Caxias, para pintar o palácio da Rainha! Na certa, a mão de obra do "Boy" seria bem mais barata do que a dos pintores britânicos. Porque eles devem trabalhar de fraque! Tudo em Londres é escuro, velho e feio. Acho que Deus não gosta de Londres. Porque DEUS É LUZ, CALOR e VIDA, enquanto Londres é o oposto de tudo isto!
O Metrô londrino é tão profundo que precisávamos de uma ou mais escadas rolantes para alcançar os trens. Elas eram verticais e quilométricas, até chegarem aos subterrâneos, onde passam os trens. Estes são abrigos antiaéreos, de tão profundos. Sempre tive pavor de escadas rolantes. Em Lisboa e Paris, contornei o problema, usando escadas comuns, embora tenha subido mais degraus do que em toda a minha vida. Mas, em Londres, não tive outra opção. Quando vi o abismo embaixo e apenas escadas rolantes, tremi de pavor e fui atirada pela multidão em cima de uma delas. Fechei os olhos, encomendei minha alma a Deus a aguardei o pior... Que não veio. Voltei ao hotel com uma tremenda enxaqueca e, daí em diante, resolvi assumir minha desditosa sorte - usar escadas rolantes, em Londres.
O Aeroporto de Paris é o maior, mais moderno e mais fabuloso que já vi. O de Londres deve ser o segundo da Europa, pois é monumental. Os guardas alfandegários não quiseram revistar nossas malas, ao saber que éramos turistas teuto-brasileiros. Nos dois aeroportos - Paris e Londres - tudo funcionava eletronicamente, dispensando a classe de carregadores que existe na América do Sul, principalmente no Brasil. Naquela viagem, eu pensei: Será que daqui a dez anos, o Brasil já terá um Aeroporto de vergonha como os de Paris e Londres? Porque o Aeroporto Internacional do Galeão é uma vergonha nacional! [Felizmente, agora temos o “Tom Jobim”, que é um espetáculo!]
Hospedamo-nos no Eros Hotel, no bairro Soho. Ele ficava na Shaftsbury Avenue, bem no coração de Londres, no Picadilly Circus. Londres é maior do que Paris em extensão e número de habitantes, mas, que metrópole bolorenta e sem vitalidade! As mulheres eram feias, mal vestidas e parece que tomavam apenas um banho por semana, porque tinham um cheirinho enjoativo de ácido butírico, o qual não me agradava! As mocinhas usavam minissaias tão curtas, que precisavam usar calcinhas de perna, para não serem autuadas. Os rapazes usavam cabelos longos - alguns até à cintura, e tinham uma aparência horrível, pois eram sujos, mal vestidos e estranhos. Pareciam todos drogados, como se fossem os primos pobres dos Beatles! O povo de Londres era casmurro, tristonho, muito esquisito! O único sorriso que vi naquela cidade foi o da Rainha Elizabeth para a nossa filha Margarete.
Do que a Margarete mais gostou, em Londres, foi de dar comida aos pombos, na "Trafalgar Square". Eram tão mansinhos, que vinham comer nos ombros e nas mãos da gente. Margarete ficou muito impressionada com as mulheres indianas, que circulavam em Londres. Elas usavam longos vestidos de seda e casacos até os joelhos. Ficavam tão esquisitas! Como é excêntrica a capital britânica! Ao lado das minissaias usadas pela geração de 15 a 20 anos, vimos vestidos Chanel nas mulheres da minha geração. Já as mulheres da geração de minha mãe usavam vestidos no meio da canela. O contraste era tão gritante que senti saudades de Paris. Na proporção de diminuir o comprimento de acordo com a idade, acho que os bebês em Londres, usavam apenas fraldas e nada mais, apesar do frio!
De Londres, fomos para a Alemanha.
Em Hamburgo, passamos um dia inteiro visitando o Zoológico, onde as feras vivem na mais completa liberdade. À noite, quando voltávamos para o hotel, resolvemos entrar num restaurante e jantar, para não precisarmos sair mais tarde. Havia ali uma orquestra. O maestro notou que éramos brasileiros, ouvindo a tagarela de nove anos tentando conversar com todo mundo, e veio nos cumprimentar. Tinha passado alguns meses no Rio, falava algumas frases em Português e disse que adorava o Brasil. Ele me ofereceu um buquê de rosas vermelhas. Havia ali uma turma de portugueses e Margarete ficou feliz:
- Oba! Até que enfim encontrei um estrangeiro que fala a minha língua!
Em seguida, ela arranjou um amigo. Era um rapagão de uns 20 anos - com quem ela dançou bastante. Todos riam da menina de nove anos, com o vestido sujo do Zoológico, dançando com a maior desenvoltura no salão. Quando íamos nos retirando, lá pelas 23 horas, ela pediu:
- Papal, fica mais um pouquinho. Eu já estava quase aprendendo a dançar!
Em Hamburgo, certa vez, eu ia atravessando uma rua com o sinal aberto, já que não havia carros à vista; um guarda apareceu e me fez voltar ao ponto de partida. E quando expliquei que era uma turista brasileira, ele disse: “Isto já se pode ver, pela falta de educação”. Fez a observação e só não me multou porque eu era “uma turista brasileira sem educação”, claro!.
Cada cidade na Alemanha, quer seja moderna como Berlim, ou antiga como Tübingen, tem como principais características a educação do povo, a limpeza das ruas e os vasos de flores que enfeitam os passeios e as sacadas das casas e hotéis. Numa pequena cidade perto de Tübingen - Reutlingen - as escadas da Prefeitura eram um verdadeiro jardim suspenso. Havia uma feira nesta cidade, quando chegamos. Duas horas mais tarde, quando voltamos do restaurante, as ruas já estavam limpas, tendo sido lavadas com detergente. Aliás, é o que sempre acontece, nas ruas da Alemanha - são lavadas com detergente e nos monumentos não se encontra uma poeira sequer. Isso, mesmo tendo em vista que a água na Alemanha é racionada e muito cara! Eu tinha um hábito que o Schultze achava ridículo. Passava a mão por todos os monumentos e bancos, na esperança de encontrar pelo menos um pouquinho de pó. É que, na Inglaterra, eu me dera muito mal, quando me encostara a uma amurada, à margem do Rio Tâmisa, e meu vestido havia ficado em estado deplorável. O que tem LONDRES de velha, feia, suja a fumarenta, tem Berlim de moderna, limpa e clara como a alma do seu povo.
Andei sempre descabelada, na Alemanha, pois não havia a menor possibilidade de entrar num salão de beleza. Eu já imaginava os preços dos serviços de beleza na Europa e cortei os cabelos tão curtos, num salão de Caxias, que fiquei parecendo uma índia loura! Ainda se usavam chapéus, na Europa, mas só as mulheres de 50 anos para cima.
De Hamburgo, fomos até Copenhague, na Dinamarca.
Em Copenhague, quando Margarete viu a estátua do Andersen, perguntou quem era. O pai explicou que era o autor das mais belas histórias infantis, inclusive a “Menina dos Fósforos". Ele ficou pensativa, alisou o busto do escritor e disse: - Tio Andersen, você é muito bacana! E foi brincar a tarde inteira, no Parque Tivoli, o mais famoso da Europa. Voltamos a Hamburgo e seguimos para Berlim.
Berlim Ocidental versus Berlim Oriental
Mesmo dividida, Berlim era uma cidade mais bela do que Paris... Em muitos aspectos. Era a mais limpa, a mais moderna, a mais ampla, a mais longa em superfície, com uma população superior a quatro milhões, uma parte do lado ocidental e a outra do lado oriental, separadas pelo chamado Muro da Vergonha.
Berlim Ocidental era uma cidade que jamais poderia ser esquecida, depois de visitada, porque era tudo que se pode imaginar de bom e positivo. Parece que nela existia vida borbulhando em cada pessoa, beleza pura derramada em cada paisagem. Para 1/3 de construções havia 2/3 de jardins e bosques! Os Teatros e Óperas viviam cheios de gente bonita, bem vestida e cheia de entusiasmo. O Metrô era um show de limpeza, conforto e era pontualíssimo, como, aliás, tudo, na Alemanha. Os ônibus têm a hora marcada nas placas e não atrasam um minuto. Os passageiros eram discretos, ninguém falava alto, todos eles cheirando a Colônia 4711, ou seja, uma mistura de lavanda com flor de laranja. Até as mulheres idosas trabalhavam, tendo o rosto quase sem rugas, bem coradinho, e mostrando uma limpeza tão especial, no corpo e nos gestos, que eu fiquei encantada. Nunca vi um povo tão bom e tão puro. A gente se sentia feliz e protegida, na Alemanha, e custa crer que algum dia um louco fanático chamado Hitler tenha causado tantas desgraças ao mundo, vivendo num país assim. Fiquei loucamente apaixonada por Berlim Ocidental. Os únicos parentes do Hans moravam do lado oriental e passamos duas vezes para o lado de lá. O protocolo para se entrar e sair era cansativo. Mas valia a pena, porque a diferença entre os dois lados era chocante. A comida no lado ocidental foi a melhor que já experimentei. Do lado oriental foi pior do que a de Londres. As mulheres do lado ocidental eram lindas e chiques; as do lado oriental eram mal vestidas e cheiravam mal. No lado ocidental, eu pedia mentalmente a Deus que Ele parasse o tempo. No lado oriental, eu ficava sempre em suspense, querendo dar o fora.
A entrada e saída de Berlim Oriental representavam um drama e só quem visita um pais comunista, e vê como é lá dentro, pode sentir a diferença entre a democracia verdadeira (ou mesmo um regime controlado como o do Brasil naquele tempo) e um regime de terror e amesquinhamento humano, como é o regime comunista. [E ainda tem gente querendo votar na candidata Dilma?] Estivemos duas vezes no lado oriental, visitando a Tante Trude, Bruno e Hanna, nossos parentes. Tante Trude, a irmã do meu sogro, fez 80 anos e comemos um bolo de chocolate muito gostoso em sua casa, no dia 09 de junho. A diferença no nível de vida entre o lado ocidental e o oriental era gritante, mesmo tendo em vista que a Alemanha Oriental era o país mais rico do regime comunista. A comida era tão racionada que tivemos medo de comer bastante, porque tínhamos a impressão de que nossos parentes estavam torcendo para que sobrassem algumas fatias do bolo e alguns salgadinhos. Foi uma pena, porque Hanna cozinha bem e eu gostaria de ter-me empanturrado de coisas gostosas em sua casa.
Da primeira vez em que estivemos no lado oriental, jantamos num restaurante popular e comemos caviar à beça, mas os pratos e talheres eram mal lavados e tudo era tão precário, que o caviar perdeu o gosto. Sempre que íamos à parte oriental, levávamos delícias do lado ocidental, que os guardas do Check Point Charlie deixavam passar, de boa vontade, e até as olhavam, gulosamente! Levávamos chocolates, café e cigarros para os nossos parentes. Para Hanna, cuja cozinha era tão limpa e arrumada, eu levei quatro panos de prato de linho puro, comprados ma parte ocidental, e quando ela abriu o pacote, (que os agentes da alfândega já haviam amarrotado, para ver o conteúdo), chorou de alegria!
As mulheres do lado oriental eram mal vestidas e tristes. Já do outro lado - o lado BOM, como a Margarete o chamava - elas eram elegantes, cheirosas e sorriam muito. Ali, as mulheres que tomavam conta dos toaletes eram tão elegantes! Usavam lindos costumes de lã, meias finíssimas e sapatos de cromo, combinando com a bolsa. Pareciam mais esposas de diplomatas do que encarregadas dos toaletes. Também, os toaletes eram limpos, sempre esterilizados após o uso, com um detergente contendo uma boa porcentagem de formol.
Em Berlim Ocidental, visitamos todos os recantos pitorescos e fiquei maravilhada com a cidade. Alguns dias depois, fomos ao lado oriental, onde o Hans tinha uma tia a alguns primos. Era muito chato cruzar o Check Point Charlie. O pessoal do lado comunista ficava um tempo enorme com os passaportes, identidade e os objetos dos turistas, os quais ainda tinham de declarar por escrito todo o dinheiro que levavam e entregar-lhes. Davam-lhes uma quantia razoável para as despesas em Berlim Oriental e, só então, eles podiam passar pelo último controle.
Na primeira vez em que cruzamos a fronteira, Margarete se comportou bem, mas, na segunda, perdeu a calma e fez um discurso ali mesmo:
- Gente chata esses comunistas. Tratam todo mundo como criminosos. Eles pensam que, só porque nós moramos em Caxias, somos bandidos. Bandidos são eles, que fizeram esse muro horrível pros outros não fugirem para a Alemanha Boa. Eu detesto comunistas.
Pedi que ela se calasse, para nos evitar problema, mas ela afirmou com segurança: - Vê lá, se esses idiotas entendem Português.
Mas, "idiota" é a mesma palavra em Alemão e um guarda, com dois metros de altura, veio me perguntar o que a menininha estava dizendo. Traduzi o discurso dela desta maneira:
“Ela diz que vocês demoram muito a liberar os passaportes... Que ela está com muita fome e quer chegar logo na casa da tia-avó, para comer o bolo de aniversário, pois a Tante Trude faz hoje 80 anos. Diz ainda que foi uma idiota porque não trouxe um chocolate para ir comendo aqui, enquanto esperava...”
O guarda sorriu tranquilo e falou:
- Você é linda, sabe? Venha cá, amiguinha do Pelé, venha pro meu colo.
Ela subiu nos braços do gigante e foi logo alisando o seu broche com o compasso e o martelo, contemporizando: - Teu broche é bacaninha, cara!
- O que foi que a menina disse? Respondi que ela achava lindo o broche dele. Então, ele explicou que lamentava não poder dar-lhe o broche de souvenir, porque aquele era o emblema do partido. Quando traduzi a desculpa, ela fez uma careta e disse: - Pra que é que eu ia querer esta porcaria? (Ainda bem que “porcaria” em Alemão é “schweinerei, ou seja, uma palavra bem diferente!).
Cada vez que deixávamos o lado oriental e chegávamos ao lado ocidental, Margarete gritava, pulando de alegria: - Ôba! Graças a Deus, chegamos na Alemanha Boa! Os guardas americanos do Check Point Charlie gostavam dela e lhe davam balas, as quais ela agradecia em Alemão, depois me perguntava: - Mamãe, eu agradeci em Alemão ou em Inglês? Então, começava a repetir: Danke schon... Thank you... Danke schon...Thank you…
Quando andávamos no Metrô, do lado oriental, ela olhava as pessoas mal vestidas, usando capas de plástico, em vez de gabardine cara, como as do lado ocidental, e comentava: - Quando eu chegar ao Brasil, não vou mais usar capa de plástico, pra não parecer com essa gente comunista e pobre...
Voltando a Berlim Ocidental - Esta era a cidade mais bonita e limpa da Europa. Era realmente uma cidade rica, onde todo mundo andava bem vestido, usava perfumes caros e jóias fantásticas. Mas, duas coisas me desgostaram em Berlim:
1a.) As mulheres tinham o péssimo costume de puxar as crianças amarradas, como um cachorrinho, enquanto abraçavam os cachorrinhos.
2a.) Foi a cidade do mundo onde eu vi mais cocô de cachorros. Parece que os alemães de Berlim são mesmo fanáticos por cães. Aliás, lembro-me de uma estória, que o meu marido contou. Foi a de uma mulher que precisou escolher entre o cachorrinho e o marido. Escolheu o cãozinho, claro! Escrevi algumas trovas sobre o assunto, mencionando as duas vezes em que estive Berlim: