Mary Schultze
Livrinho em prosa e verso
contando minhas andanças pelo mundo.
Ele é dedicado a minha família.
Prefácio da primeira edição do livro “Cubos de Gelo” (1967), do qual retirei muitas estórias para este novo livro:
Há leitores que não gostam do que lêem.
Há também escritores que não gostam do que lêem. Você gosta dos meus escritos e eu gosto de ser lido sem desagrado por você.
Você representa o que há de melhor em minha terra. É uma cearense com muito talento, com uma férrea vontade, sabendo o que quer e indo para onde quer ir.
Leia-me e continue a escrever, também, para esse seu leitor satisfeito. Henrique Pongetti (1898-1976).
Dedicatória (Conforme o “Colar de Pérolas”)
Dedico este livrinho, também, a PAULO DE TARSO, Pregador, Apóstolo e Mestre do Evangelho de JESUS CRISTO.
Lendo suas Epístolas, encontrei o caminho para chegar ao verdadeiro conhecimento de Cristo, em Quem Deus fez congregar “todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra”. (Efésios 1:10)
Que estas lembranças - colhidas no profundo mar da minha mente octogenária - possam levar aos leitores um testemunho de fé em Jesus Cristo.
E que Jesus Cristo, o Rei dos reis e Senhor dos senhores, volte em breve para governar o mundo, com o amor, a justiça e a paz que formam a base do Seu santo Evangelho. Ele diz em Mateus 12:34-35: “do que há em abundância no coração, disso fala a boca. O homem bom tira boas coisas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau do mau tesouro tira coisas más.”
Este é o 19º. livro que escrevo, confessando o Seu nome diante dos homens, como Ele ordenou que fizéssemos. E estou certa de que Ele é poderoso para guardar o meu depósito, confessando-me diante do Pai Celeste.
A FAMÍLIA
MEU PAI - Nascido em 1909, meu pai - ANTERO MACEDO - era o homem mais bonito do Crato. Alto, moreno, de olhos verdes, minhas colegas do Liceu do Ceará faziam fila para ganhar um beijo dele, quando ia me buscar à saída da escola. Foi um bom repentista e se dele não herdei a beleza física, pelo menos herdei a facilidade de improvisar versos. Um dia lhe deram este mote para ele glosar em cinco minutos e vejam o que saiu de sua verve:
MOTE: Toda mulher janeleira / namora que cai de costa.
GLOSA: Quando a gente vive alegre, no gesto o prazer encosta.
Lá da casa da rameira / quase todo mundo gosta.
Quem não quer ter prejuízo, quando teima não aposta.
Professores de primeira / sempre deram tal resposta:
Toda mulher janeleira / namora que cai de costa!
Quando eu estudava no Ginásio Santa Teresa, papai me pediu que lhe ensinasse Inglês. Começamos assim a primeira aula:
G—o—o—d, pronuncia-se “gud”’ e significa BOM.
F—o—o—t, pronuncia-se “fut” e significa PÉ.
B-o-o-k, pronuncia-se “buk” e significa LIVRO.
Papai perdeu a paciência e falou:
- Minha filha, não quero mais aprender essa língua de doido, não! Uma língua que escreve “gato”, pronuncia ”cachorro” e significa “vaca”. Isso é coisa que se aprenda?
Entre 1948 e 1950, depois de vender sua loja - A Nova Aurora - ele foi negociar com ouro e pedras semi-preciosas, no norte do Brasil. Sempre que voltava, ele nos trazia lindos presentes. O mais bonito de todos foi um par de brincos, de ouro e ônix, imitando abelhas. Ao me entregar o mimo, papai falou, piscando os seus olhos de esmeralda:
Paguei mais de vinte e cinco / pelo parzinho de abelhas.
Pois, mulher que não tem brinco, / pra que diabo quer orelhas?
Ele era assim - belo, elegante e cheio de verve! Não perdia oportunidade de dizer coisas engraçadas, nem mesmo durante as refeições, que em nossa casa eram muito solenes:
Minha filha magricela, / dona do meu coração,
passe depressa a tigela / que eu quero comer feijão!
Resposta:
A tigela de feijão, / Sr. meu pai, vou lhe dar,
mas me passe o macarrão, / que eu preciso engordar!
No último ano do curso ginasial, fiz uma coisa horrível. Saí cedinho de casa, dizendo a mamãe que ia para o colégio. Mas fui com uma colega passar o dia na fazenda de minha avó. Na volta, lá pelas 5 horas da tarde, precisando vencer sete quilômetros a pé, resolvemos tomar emprestado um cavalo. O animal correu muito e nos atirou em cima de uma cerca de arame farpado. Ficamos bastante machucadas e só à noite conseguimos chegar em casa. Nossos pais estavam malucos à nossa procura. Quando me viu entrar toda arranhada, vestido em frangalhos, mamãe teve um acesso de fúria, (o qual disfarçava o alívio), e quis me dar uma grande surra. Papai, que era meu aliado, protestou:
- Você tá doida, Rosa? Nossa filha quase morrendo por causa de um desastre e ainda precisa ser castigada? Deus já castigou demais!
MINHA MÃE
Sobre minha mãe - ROSA - nem sei o que dizer. Era uma personalidade rica demais para ser descrita em palavras. Ela era toda amor, carinho, dedicação, espontaneidade e de humanas só tinha mesmo as broncas que dava nos filhos, quando estes saíam da linha; e nos netos, quando lhe desarrumavam a casa, mexendo com a sua mania de ordem e limpeza. Eu sempre lhe dedicava trovas no Dia das Mães e estas foram as de 1955:
Mais bela do que a beleza, / mais perfumosa que a flor,
mais pura do que a pureza, / mais amável que o amor.
Mais alegre que a alegria, / mais santa que a santidade,
mais clara que a luz do dia, / mais sublime que a bondade...
Quem há de ser, nesta vida? Só tu, mãezinha querida!
MEU MARIDO - HANS SCHULTZE
Garboso e compenetrado / tenho um marido alemão,
há muitos anos guardado / dentro do meu coração.
Sempre tranquilo e calado, / sem dar seus pontos de vista,
o Schultze fica sentado / com jeito de cientista.
De minha vida enrolada / não tinha encontrado o eixo,
até que fui enquadrada / na covinha do teu queixo.
Quem for livre de pecado, / que atire o primeiro seixo,
pois vou cair de bom grado / na covinha do teu queixo.
Devo ser crucificada, / mas de te amar eu não deixo.
Morro, pra ser enterrada / na covinha do teu queixo!
MEUS IRMÃOS CHICO E ODETE
CHIC0 - Era o mais velho e teria hoje 81 anos. Jamais gostou de estudar e desperdiçou o seu alto QI em aventuras pela Amazônia. Morreu num acidente de carro, na Transamazônica, em 1975. Viveu livre como um pássaro e jamais assumiu responsabilidade. Descanse em paz, meu irmão, e perdoe a minha incapacidade de compreender o seu jeito de viver. Eu sempre fui muito radical, para entender o arco-íris de vida que você viveu. Porque, acima de tudo, você era bom e amava a família.
ODETE - Veio logo depois de mim, sendo a segunda das seis filhas que mamãe teve, depois do Chico. Quando menina, deu muito trabalho a mamãe, pois era viva demais. Casada com o bancário Ruy Borges (já falecido), tem quatro filhos maravilhosos, foi avó antes dos 40 e bisavó, antes dos 60 anos (Ela me matava de inveja, pois, somente aos 50 anos, tive a alegria de ninar minha neta Luciana. Casei muito tarde.) Quando pequena, ODETE detestava a palavra pobreza, tanto que sua primeira poesia assim começava:
Odete Macedo Nobre / tem vocação para artista,
não é rica nem é pobre, / mas é individualista!
Quando distribuía a merenda dos irmãos menores, sempre tirava proveito. Naquela tarde, havia um gostoso bolo de mandioca e ela avisou:
- Quem ficar mais longe de mim, ganha o maior pedaço.
José, muito obediente, correu para o lado oposto da rua, em frente ao Bar Ideal, e aguardou inutilmente a chamada. Quando voltou, Odete havia comido o pedaço que lhe era destinado, já que ele não estava presente.
Em sua fase de adolescência, ela teve muitos atritos com mamãe e lhe dedicou um sambinha que começava assim:
Sofrer, chorar... é meu viver. / Ela bem poderia
ser na vida o meu guia / e só me faz padecer.
Ai, ai, meu Deus...
Este foi um dos 20 trabalhos de sua bagagem musical. Infelizmente, esta não saiu do caderno escolar e poderia competir até com o Chico Buarque.
Odete era a morena mais linda do bairro e todos os garotos ficavam na paquera, enquanto ela dava suas voltinhas na Praça Siqueira Campos, a mais bonita da cidade, em frente ao Cine Cassino, onde a mocidade fazia o seu "footing" diário. Quando terminou o curso ginasial, Odete foi trabalhar como minha secretária na Panair do Brasil, onde me roubou o único fã que eu possuía lá dentro. Casou com ele e foram realmente felizes por muitos anos. Quando eu não me conformava com o "roubo" e perguntava ao meu cunhado bonitão:
- Ruy, como e que eu fui perder você pra Odete?
Ele dava um sorriso e respondia:
- Todo mundo te achava inteligente, Malaíde. Mas tu eras burra demais e não me davas bola. Dete chegou e eu gamei nela. Moça inteligente não ia recusar um partidão como eu!
A melhor de Odete foi a do P.S., logo que ela aprendeu a escrever. Mamãe mandou que ela entregasse um bilhete a papai, em sua loja - A Nova Aurora. O bilhete dizia assim: "Antero, dê 50 cruzeiros para o açougue". Mais, tarde, papai trouxe o bilhete de volta para confirmar um P.S. que a portadora havia escrito: "E 2 a Odete..."
ROSA, DÁRIA E JOSÉ
ROSA - Já escrevi sobre religião, igrejas, pessoas amigas, ou simplesmente conhecidas; sobre minha mãe, alguns irmãos de sangue, mas nunca tive a idéia de escrever sobre a pessoa que mais amei e mais me impressionou neste mundo - depois de Deus e de minha mãe. O nome dela era ROSA AMÉLIA, minha irmã, cinco anos mais nova do que eu.
No dia em que Rosa se batizou, meu pai deu uma festa inesquecível, com a casa cheia de convidados. Mandou armar uma barraca enorme de folhas de palmeira, com um altar católico improvisado num canto, cheio de santos, inclusive uma imagem de Jesus-Maria-José, que ainda hoje continua na família, se não mais como objeto de adoração, pelo menos como relíquia antiga.
Vieram amigos e parentes de muitos lugares. Havia uma panela de 10 kg. de “baião de dois”, outra contendo muita carne seca com abóbora, carne de porco frita num tacho de cobre, carne de sol vinda da feira de Juazeiro do Norte, farofa e alguns quilos de requeijão fabricados em casa; doce de laranja da terra, de coco, de leite e de abóbora, bolo de aipim, etc., sem falar da cachaça caririense, muito famosa em todo o Estado do Ceará. Nunca vi e jamais iria ver tantas iguarias nordestinas, em lugar algum. Até parecia a feira de São Cristóvão, no RJ.
Chegou o vigário (Monsenhor Assis), fumando um bom charuto cubano, e conversou alegremente com uma porção de fiéis. Depois fez uma seção de confissões e logo celebrou missa campal, dando a comunhão para muitos católicos, que ali se encontravam. Era muito cedo ainda e muitas mulheres da família acabaram desmaiando, inclusive a tia Amélia. O vigário havia tomado um bom cálice de vinho, durante a missa, enquanto os fiéis haviam ficado em jejum absoluto, desde a véspera, aguardando a celebração daquela missa especial. Naquele tempo, o jejum era obrigatório para quem fosse receber a Eucaristia.
O final da festa naquela noite domingueira foi meio trágico, depois que o vigário voltou à cidade, porque alguns convidados abusaram da cachaça. (Meu pai nunca foi amigo do fumo nem do álcool). No dia seguinte, a casa estava toda suja e cheirando a azedo; minha mãe e a empregada estavam se matando para colocar tudo em ordem. Eis uma prova de que aquela não foi uma festa cristã, mas católica.
ROSA cresceu normalmente, mas quando chegou aos 13 anos, começou a ficar cheia de acne e muito deprimida, dizendo que era burra em relação ao resto da família, onde todos eram considerados inteligentes pelos professores. Resolveu se refugiar num convento e lá ficou durante uns 10 anos, até concluir uma Faculdade de Enfermagem em S. Paulo, onde muito se destacou, quando começou a se conhecer melhor. Para isso contribuí bastante, mostrando-lhe que era bela, inteligente e tinha um futuro brilhante à sua frente. Outra pessoa que muito a ajudou foi o vigário de Sorocaba, hoje arcebispo católico, formado em Psicologia. Ele e Rosa sempre foram muito amigos.
Rosa diplomou-se, trabalhou como enfermeira de alto padrão em hospitais particulares, no interior de S. Paulo; depois fez um concurso e foi trabalhar como chefe no Departamento Sanitário de Osasco, na capital. Ali, ela se revelou pela competência, inteligência e também pela sua elegância, pois era bela de corpo, tinha um rosto agradável e era dona de uma personalidade forte, porém sempre controlada pelo Espírito Santo.
Tendo abandonado o convento, com o conselho daquele padre católico muito esclarecido, Rosa continuou vivendo uma vida honestíssima, dizendo que Jesus seria eternamente o seu grande amor. Ela amava Jesus com um amor tão sublime que me deixava edificada; por isso, nunca tentei levá-la para o Protestantismo. Ela também tratava os pobres com muito amor.
Quando se aposentou, aos 53 anos de idade, Rosa voltou ao Ceará e se dedicou inteiramente à nossa mãe, que estava completando 80 anos. Em vez de ir morar no belíssimo apartamento que havia comprado com o fruto de 30 anos de trabalho público, Rosa preferiu ficar num pequeno quarto, cuidando dia e noite de nossa mãe, embora esta apresentasse, naquela época, mais saúde do que as próprias filhas.
Foi quando aconteceu a maior tragédia em nossas vidas. Rosa foi fazer um exame de rotina, para ver se estava bem do pâncreas, pois vinha sentindo algumas dores estranhas e gostava de prevenir-se contra coisas piores. O médico injetou líquido demais no pâncreas de minha irmã e, depois de três dias de muito sofrimento, Rosa estava morta.
Perder Rosa foi a maior tragédia de minha vida, da vida de nossa mãe e de Dária, porque nós a amávamos demais, sem falar nos outros irmãos, que a amavam naturalmente. Ela era minha sócia na firma, madrinha de minhas duas filhas, minha confidente e minha melhor amiga; enfim, depois de Deus e de mamãe (sem contar as duas filhas), Rosa foi a pessoa mais importante de minha vida... Uma estrela que se apagou e me deixou órfã de sua maravilhosa presença.
DÁRIA - nasceu no dia 25/10/1937, em Crato, Ceará. Com apenas oito dias de nascida precisou ser batizada às pressas, porque adoeceu gravemente e o médico deu-lhe poucos dias de vida. Era a quinta na escala dos nove filhos de meus pais e seus oito irmãos logo se habituaram a chamá-la “princesa”. Era bonita, inteligente, simples e meiga como uma pomba. Em casa, jamais foi castigada porque era organizada, obediente e prestativa.
Fez a primeira comunhão com sete anos de idade e tornou-se católica praticante. Como havia sido dedicada a Nossa Senhora da Penha, padroeira da cidade, a qual era sua “madrinha”, tornou-se mariana fervorosa e assim viveu por muitos anos. No colégio de freiras, tirava nota 10 em todas as matérias e, mais tarde, matriculou-se numa Faculdade de Filosofia. Depois arranjou um bom emprego numa companhia estatal e aí permaneceu como Secretária Executiva, até se aposentar, aos 55 anos de idade.
Por causa do seu temperamento fleumático, nunca brincava com os irmãos, preferindo estudar ou rezar o terço. Sofria de uma dor de cabeça, que iria atormentá-la por mais de 20 anos. Nem mesmo os constantes pedidos de ajuda e as orações à sua “madrinha” resolveriam o problema, que ela suportou resignadamente. Tornou-se carismática, esperando o milagre da cura, que nunca veio. Quando todos os irmãos se casaram, constituindo família, Dária resolveu se dedicar inteiramente a mamãe, agora abandonada pelo nosso pai. Assumiu não apenas nossa mãe, como também uma porção de sobrinhos, e sua vida girava sempre em torno do trabalho, dos cuidados com a família e da devoção a Maria. Dária era o que se pode chamar de solteirona amada e respeitada por toda a família. Nunca teve um namorado, nem jamais foi beijada por um homem. Freqüentava as reuniões do grupo carismático e fazia Ioga, na esperança de conseguir uma cura para as dores de cabeça...
O tempo passou e quando estava com 59 anos de idade aconteceu-lhe algo maravilhoso. Depois de ler a Bíblia e alguns livros evangélicos, ao chegar à página 34 do livro “Por Amor Aos Católicos Romanos”, Dária teve um encontro pessoal e verdadeiro com o Senhor Jesus Cristo. Deixou a “mariolatria” e tornou-se uma crente bíblica.
Foi quando aconteceu o inesperado. Nossa mãe - que também já havia abandonado a ICAR, teve um AVC e ficou inválida. Dária renunciou ao sonho de tornar-se membro de uma igreja batista, para se dedicar inteiramente a mamãe, como amiga e enfermeira.. Não se lamentava, nem se considerava infeliz, porque tinha agora uma relação de amor com Jesus Cristo e a paz de Cristo que excede todo o entendimento lhe enchia a alma.
Dária amanheceu morta, no dia 28/08/1999, com um leve sorriso nos lábios e a Bíblia aberta na 1 Coríntios 13. Nossa mãe sobreviveu até março de 2004. Enquanto isso, Dária estava esperando-a... no céu!
JOSÉ - Era meu irmão predileto. Quando nasceu, eu já era grandinha e dele tomei conta, desde o 2º. Banho, até a entrada no Ginásio. Alfabetizou-se sozinho aos quatro anos de idade. Aos sete anos, já escrevia cartas, sem um erro de concordância, e também versos para as meninas de sua idade. Participando de um programa de radio infantil, improvisou esta:
O meu futuro e ser / grande poeta do Brasil.
Comecei agora mesmo, / neste programa infantil!
Quando fez 10 anos escreveu uma trova a cada irmão pedindo um presente. A minha foi esta:
E como eu tenho uma irmã, / que nunca fez um fiasco,
irei ao Maracanã, / assistir Flamengo x Vasco!
Formou-se em Economia e trabalhou muitos anos no Banco do Brasil, no Recife. Tinha uma linda esposa e três filhos. Dizia que era um homem feliz e realizado na vida, apesar da saúde precária, pois era diabético. Faleceu aos 61 anos de idade.
SAVANY - Morena de olhos verdes, pequena e frágil, foi a mais tagarela da família e bateu todos os recordes em gracinhas. Quando eu era mocinha e ela criança, uma tarde fomos à Catedral do Crato para fazer a Via Sacra, pois eu era muito religiosa. Íamos na 5ª. estação, quando ela se cansou. Foi para a frente do altar-mor, plantou uma bananeira e gritou: - Mana, tu sabes fazer isto?
Quando eu vinha de Fortaleza, nas férias escolares, ela não me largava um minuto. O que havia de especial em casa, para o lanche, era para mim e ela não se conformava. Um dia, quando eu tomava café com bolo de mandioca, ela começou a namorar o ultimo pedaço de bolo que havia no prato e perguntou, cuidadosamente:
- Mana, tu ainda vais querer aquele pedaço?
- Claro...
- E o que e claro. É querer em Inglês?
Papai comprou o primeiro liquidificador que apareceu nas lojas do Crato e, chegando em casa, todo eufórico, falou pra mamãe!
- Tá aqui um liquidificador pra fazer vitaminas pra nossa filha estudiosa.
Savany ouvindo isto, correu para o quarto, apanhou o livro de História e começou a ler os pontos em voz tão alta, que mamãe mandou-a calar a boca. Era a maneira encontrada de provar que era ela, e não eu, a filha estudiosa da casa.
Uma noite, eu estava lendo “O Guarany”, de José de Alencar, enquanto aguardava na Radio Nacional mais um capítulo da novela. Ela falava sem parar e mandei que se calasse. Ela parou e, cinco minutos depois, me abordou com esta pergunta:
- Mana, por que é que todo mundo te acha inteligente?
Nosso gato Mimoso havia feito um montão de cocô no banheiro dos empregados. Ela viu e achou demais para um gato só. Foi até a cozinha e falou para mamãe:
- Mimoso é um descarado. Já achava pouco o que fazia antes, agora
convidou os amigos e fizeram um montão de cocô no banheiro!
Quando nossa Tia Quinô, muito fofoqueira, contou:
- Pois e, Rosa, a fulana foi trabalhar num Banco cheio de homens. Mulher que trabalha em Banco acaba virando rapariga!
Savany achou o termo sonoro e, quando a tia saiu, perguntou qual era o significado daquela palavra desconhecida. Respondi que era moça que se pintava demais. No dia seguinte, quando eu estava lavando a louça do jantar, ela entrou direto em meu estojo de maquilagem, ficou mascarada e chegou na cozinha toda se requebrando:
- Mana, veja se eu não estou igual a uma rapariga!
Savany ficou viúva aos 26 anos e criou - com muita dignidade, o seu filho Oriesne Junior. Em 1980, casou com o médico cearense Dr. Francisco José, e tem com ele dois filhos - Bruno e Breno.
GILBERTO - Era o mais novo dos homens. Sempre foi muito doentinho na infância e mamãe se matava de zelo por ele. Guloso, de olhos grandes e míopes, quanto mais comia mais magro ficava, e assim continuou até se tornar adulto. Tem mais de 1,80 m de altura e mora em Manaus. Até os nove anos, era tato e, quando abria a boca para falar, era um Deus nos acuda.
- Mana, puta a tadêla, ou seja: (mana, puxe a cadeira)
Quando eu fazia o prato dele, sempre perguntava:
- Mana pla quem e esse platão?
- É pra você, Gil.
- Ué, só esse platim?
Contando a morte de Jesus para a irmã caçula:
- E Dedui ia levando uma tuz do tamanho de vinte ludá.
(E Jesus ia levando uma cruz do tamanho de vinte lugares). Isto é, enorme!
Um dia, Ele caiu dentro da fossa, no quintal de nossa casa, e só não morreu porque a empregada viu o acidente, gritou apavorada e mamãe o pescou depressa. Gastou um sabonete “Vale Quanto Pesa” e quase uma garrafa de álcool para desinfetá-lo. Mais tarde, já refeito do susto, ele comentou:
“Puta, vida. Eu tazi morri afodado!”
BERNADETE - Foi a caçula da lista de doze filhos que meus pais tiveram, dos quais se criaram nove. Houve um intervalo de cinco anos entre ela e Gil, pois mamãe havia lido um livro proibido pela igreja e aprendera a se defender por algum tempo. Berna (como a chamamos) nasceu caprichada! Alta, morena, de olhos verdes, é a versão feminina de papai e até foi candidata a Miss Ceará. Quando estava no Ginásio, e Rosa era freira, ela fez uma boa. Quando fazia uma prova de História, esqueceu a data da Proclamação da República. Então, disse à professora que estava com cólica intestinal e precisava ir ao banheiro. Saiu, foi até a sala onde Rosa dava aula e perguntou a data. Voltou, continuou a prova e tirou nota boa. Casou com um rapagão de 1,80 m e começaram a produzir uma geração de gigantes. Daniel, o primogênito, já pesava 15 kg. com apenas nove meses de idade. Depois veio Rosana, a linda princesa de olhos cinza. Em 1980, a família foi enriquecida com a chegada da Raquelzinha, uma garota gorducha e sorridente, que fez a alegria dos pais e irmãozinhos. Era uma linda família de cinco pessoas. Infelizmente, Marconi foi trabalhar em Brasília, lá conheceu outra mulher e separou-se de Berna, a qual, deprimida e sem um objetivo na vida, acabou ficando aos cuidados de nossa irmã Dária.
MARGARETE - É minha única filha biológica, nascida no RJ, em 10/01/1958.
Flor duas vezes mimosa, / beleza de minha vida,
Tu és um botão de rosa, / minha doce Margarida.
LUCIANA - Em 04/04/1979, nasceu minha primeira neta - Luciana, filha de Gentil e Margarete. Escrevi um poeminha para ela.
Vive chorando ou dormindo, / boneca de porcelana,
e tem um sorriso lindo / minha neta Luciana.
Esta coisinha adorada, / tão frágil e tão mimosa,
Veio do céu embrulhada / numa pétala de rosa!
VÓ QUITÉRIA E TIO QUINCO
Quando meu pai, com 18 anos de idade, foi pedir mamãe em casamento, minha avó Quitéria, que reinava no Baixio dos Ferreiras, falou:
- Eu dou a mão da menina, mas você vai dar o enxoval. Quem quer moça bonita, mexe com os pés e com a bolsa.
E assim foi. Eu só imagino a simplicidade do enxoval. Meu pai não tinha onde cair morto!
Um dia, eu estava tentando convencer o Tio Quinco de que a Amazônia fica ao Norte do Brasil e não "nas estranjas", como ele dizia. Minha avó perdeu a paciência com a minha teimosia e falou:
- Dadita, você e muito sabicholinha. mas desta vez você perdeu.
E quando me ouviu declamar o poema “Julius Caesar”, de William Shakespeare, no original, ela ficou muito preocupada e perguntou a mamãe:
- Rosa, tu não achas que essa menina tá ficando ledeira demais?
Assim ganhei o apelido de "sabicholinha ledeira".
A Cacimba
É assim que o povo do interior chama cisterna em minha terra. Por isso Tio Quinco, ao chegar em nossa casa no Crato, vendo a piscina que papai mandara construir, falou horrorizado:
- Rosa, Antero tá ficando maluco? Onde já se viu fazer uma cacimba grandona desse jeito e ainda deixar destampada pras crianças caírem dentro?
A FAMÍLIA PATRÍCIO - Eram nossos vizinhos. Seu Joaquim tinha um Bar-Café na Rua D. Bárbara de Alencar. Moravam parede meia conosco, na Rua Santos Dumont. Mamãe tinha nove filhos e sua xará - Rosa Patrício - tinha dezessete, mas nunca se desentenderam por causa das crianças. Eram duas mulheres incultas, mas cheias de amor, com sorrisos de compreensão e ternura pelos filhos. Suzete era mais nova do que eu apenas um ano e íamos juntas ao Colégio.
Todos os membros da família Patrício eram gordos. Suzete, enfermeira de alto padrão em Nova Iguaçu, nos anos 70, continuou minha amiga. Ela morria de tristeza por não poder mais comer doce de leite e feijoada... Pra não engordar. Uma das irmãs passou da conta e um dia, quando voltava de um encontro com o namorado, a mãe falou irritada:
- Eu só queria saber qual foi a maré que atirou esta baleia aqui, agora!
Quando o filho Lindemberg - meu amigo de infância, hoje rotariano e jornalista no Crato - ia entrar no Ginásio, falou:
- Mãe, vou escrever ao Getúlio, pedindo uma bolsa de estudos, pois papai tem muitos filhos e o Governo precisa ajudar.
D. Rosinha protestou:
- Que escrever pra Getulio coisa nenhuma. Eu lhe dei uma bolsa de estudo de couro bom, no ano passado, e já está aí, toda ralada.
O FUNERAL DA FREIRA
Estávamos na aula de trabalhos manuais, que eu detestava. Para divertir as colegas e passar o tempo, comecei a fazer trovas humorísticas sobre o professor de Latim:
Quando ele entra na classe, / dá bom dia sem sorrir,
mas quer a lição bem dada, / pra ver a gente latir!
A freira (Madre Paiva) que nos ensinava a bordar chamou minha atenção, pela terceira vez, e me mandou sair da sala. Antes de pular a janela, escrevi esta trovinha, no quadro negro:
Esta irmã mal humorada, / de olhar azul sempiterno,
já foi por mim condenada / às profundezas do inferno!
Eu deveria ter sido expulsa do colégio, naquele mesmo dia; mas, para minha felicidade, morreu uma freira da Ordem e o caso foi esquecido entre as lágrimas do funeral. Deus sempre me protegia, até quando eu saía da linha e merecia um bom corretivo. Ó, Deus maravilhoso! Ele conhecia o meu grande amor pelo Seu Filho.
Meus professores no Liceu do Ceará e no IBEU
O Padre Jorgelito, figura muito conceituada no magistério cearense, era o nosso professor de religião no Curso Científico e dava uma aula sobre o primeiro capítulo de GÊNESIS. Uma das alunas, muito interessada em assuntos sexuais, comentou:
- Padre, eu acho que Adão e Eva não fizeram nada de mais. Porque, se eles não tivessem feito aquilo, o Sr. e eu não estaríamos aqui, hoje, fazendo o quilo.
Por causa disso, Aparecida, que adorava aparecer com as suas gracinhas, ganhou uma trova assim:
Aparecida parece / que vai ser cirurgiã.
Mas, se um marido aparece, / ele termina mamã!
Meu pistolão
Entrar no Liceu, naquela época, era dificílimo e precisava-se de um pistolão enorme! Meu pai era um simples comerciante do interior e não conhecia gente importante; por isso, me matriculei num colégio particular. Mas, no dia seguinte, acompanhando a mãe de uma colega, que ia matricular a filha no Liceu - com uma carta de apresentação do genro deputado - resolvi ser meu próprio pistolão. Quando o Diretor, que atendia D. Ritinha, notou minha presença e perguntou o meu nome, respondi: "My name is Mary Macedo"; e mandei Inglês em cima do velho. Ele era o professor da matéria e ficou fascinado! Chamou o pessoal para ver o “fenômeno cratense” e, quando eu saí dali, estava com uma vaga para estudar de graça.
Dearest - Meu grande amor platônico era o professor de Inglês, no IBEU. Desde a primeira aula, vendo o meu desembaraço na matéria, ele ficou impressionado e ficamos amigos de verdade. Isto é, ele era meu amigo e eu era sua namorada (na mente). Ele nem desconfiava do meu amor e, um dia, piorou as coisas, quando, tendo eu tendo tirado a maior nota nas provas do semestre, ele me deu um respeitoso beijo na face e me chamou "DEAREST". De todos os apelidos que tive em minha vida - Dadita, Sabicholinha Ledeira, Mary, Malaíde, Antena de Rádio, este foi o mais perfeito, em todos os sentidos. Por isso é que ainda hoje, depois de 63 anos, continuo apaixonada pelo meu professor do IBEU - que não vejo há muitos anos e nem sei se ainda está vivo!
O professor de geografia
Chamava-se Geraldo e tinha um defeito de dicção, pronunciando o x sempre como ch, em todas as palavras. Por exemplo, "exato" era "echato". E era chato mesmo! Eu estava apaixonada pelo outro professor com letra G e fiz umas trovinhas assim:
A letra "G" é a mais bela / que existe no alfabeto.
Eu vivo pensando nela / sempre, com o maior afeto.
É tão bem acabadinha / que dá gosto a gente ver;
bem corada e redondinha, / boa da gente escrever.
Tão rica e cheia de encanto, / bem torneada e mimosa,
a Letra "G" cheira tanto / que só um botão de rosa.
Não é o "g" de guloso / nem de gorila, que horror!
É o "G" maravilhoso / do nome do meu amor!
O professor de Geografia leu as trovas, (que uma colega saliente lhe mostrou), achou que os versos eram para ele e começou a me cortejar. No início do namoro, ele me presenteou com “Os Sertões” , de Euclides da Cunha... Que eu nunca li, pois era um livro volumoso e chato demais!
D. Argentina & Maria Uchoa
Quando eu era estudante em Fortaleza, fui hóspede de duas senhoras muito idosas, que moravam na Rua Tristão Gonçalves, ao lado do falecido deputado Carlos Jereissati. Uma delas - D. Josefina - era um anjo de bondade e eu a chamava “Vovó”, pois era mais amorosa comigo do que minha avó Quitéria.
D. Argentina - era muito dura na disciplina da casa. Então eu pedia às colegas para não irem estudar comigo, pois D. Argentina não iria recebê-las com buenos aires...
Maria Uchoa - era minha companheira de quarto em casa de D. Argentina. Mulher bonita, alta e loura, até parecia heroína de uma Ópera de Wagner. Era professora de desenho e gostava de fazer trocadilhos com todo mundo. Maria tinha uma "love story" meio esquisita com um professor da Universidade da Bahia, que ela chamava “Caboco”. Ele nunca apareceu em Fortaleza e minha amiga ia visitá-lo, todo ano, em Salvador. Lá ficava uns oito dias e voltava remoçada e cheia de esperanças. Até que um dia ela descobriu que o “Caboco” era casado e já tinha netos.
Murchou completamente e se atirou numa aventura louca. Chegou de noivo a tira-colo, depois de um fim de semana em sua fazenda, e com ele se casou, a jato. Ela com 42 e ele com 21 anos. Internou-se na tal fazenda e ninguém mais a viu, desde então. Estaria viva? Estaria morta? Às vezes, sonho com ela me dizendo: - Estou muito feliz, Anteninha de Radio! Casei com o Caboco e estamos juntos no céu... Aí eu me pergunto: Será que o misterioso marido deu cabo de Maria Uchoa, a fim de herdar sua fazenda?
Meu Primeiro Emprego & Margarida Girão
A PANAIR precisava de moça que falasse Inglês e fui apresentada ao Agente - Celso Nunes - pelo meu professor do IBEU. Fiz o teste e ganhei o emprego.
Meu chefe imediato, Álvaro Oliveira, era muito bom e me ensinou o trabalho com paciência e boa vontade. Além de ser um homem lindo, Álvaro era um perfeito cavalheiro e me tornei sua grande admiradora. Mais tarde, ele se tornou Agente da VARIG, em Fortaleza. Acho que poucos homens gozaram de tanto prestígio como Álvaro, conquistado com a sua polidez, capacidade e generosidade. Lamento que, anos mais tarde, ele tenha se tornado vítima do Mal de Parkinson.
Margarida - foi minha colega favorita no Liceu, desde o primeiro dia de aula. Morei uns tempos em casa dela, mas, como duas adolescentes de forte personalidade, brigávamos tanto que não dava para eu ficar ali, definitivamente. Mudei duas vezes para outras casas e tornava a voltar para a casa de Margarida. Sua mãe, D. Luce, era a melhor cozinheira da cidade e em sua casa engordei alguns quilos. Deixei de ser anteninha de rádio e até arranjei namorado firme, no curso cientifico. Maggy, apelido que botei nesta colega, foi mais tarde trabalhar na Panair, como minha assistente, e se casou com o despachante do aeroporto.
Em dois anos de Panair, tive duas secretárias: Maggy e minha irmã Odete, e ambas se casaram com funcionários da empresa. Só eu estava encalhada. Apaixonada pelo meu Dearest, não tinha olhos para homem algum. Na Panair, eu conheci homens importantes como Joracy Camargo, Dr. Eraclides Souza Araújo (o grande Leprólogo), Dr. Paulo Niemeyer (o grande Neurologista), e outros. Era um trabalho fascinante e fiquei dois anos como Encarregada da Seção de Passagens. Mas eu nunca estava satisfeita com o que tinha e sempre ambicionava mais. Por isso, me candidatei ao curso de Aeromoça da linha internacional da PANAIR. Não passei no exame de seleção. Meu Francês era péssimo e meu peso e pressão, muito baixos. Principalmente, eu era menos bonita que as demais candidatas. Fiquei desiludida com a PANAIR e resolvi deixar o emprego. Mas, logo consegui outro, visto como um empresário importante estava de olho na moça que era esteno-datilógrafa bilíngue. Era o representante da Willys-Overland no Brasil e não falava Inglês.
Novamente, meu professor de Inglês ajudou, apresentando-me ao dono da firma J. MACEDO S/A, onde comecei a trabalhar como Secretária do titular, José Dias de Macedo. Ele era um ótimo chefe, mas me fazia trabalhar demais. Então, adoeci da vista e fui para o Recife consultar um especialista em Oftalmologia, antes mesmo de completar um ano de emprego. E não mais voltei ao Ceará. Além de secretária do Macedo, eu servia de intérprete, não tinha hora certa para sair e nem podia continuar meus estudos.
Mr. Denchfield
Era o Superintendente da SINGER (no Recife) e meu chefe imediato. Muito exigente e agressivo, tratava muito mal os empregados. Todos o temiam e ele se vangloriava do fato. Um dia, vendo a minha desenvoltura, ele perguntou:
“Mary, você não tem medo de mim?”
Respondi com uma trova:
O Sr. é bem ranzinza, / mas tem “natureza" boa.
Tem suas "quartas de cinza", / porém não é má pessoa.
Ele riu e passou a me tratar com muita admiração. Meus versos repentistas sempre foram a arma que eu usei para conquistar as pessoas.
Mr. Brown - um inglês carrancudo - era o chefe da Contabilidade. Um dia tornou-se avô e saiu do sério, dançando pela sala, propalando o acontecimento. Então, mandei uma trova para ele:
Mr. Brown is a happy man, / as he has a grandson;
and I'm sure he can / expect more, from now on...
(O Sr. Brown é um homem feliz / porque já tem um netinho;
e estou carta de que ele pode / esperar mais, daqui para a frente.
Mr. Frey - (pronuncia-se Frai) era um judeu alemão, que chefiava o Departamento de Novidades. Ele era brincalhão, à beça. Eu batia cartas para ele e um dia, depois da 30ª. carta, coloquei um versinho reclamando:
O Sr. escreve tanto! / Isto é epistolomania!
Às vezes bato - com espanto - / 30 cartas num só dia!
Ele gostou e pediu mais versos; então fiz estes:
Onda vai e onda vem, / onda vem e onda vai
E, como as ondas, também, / chegam as cartas do Frey.
Eu bato as cartas e mando / para o Patinho assinar.
Mas o Frey, de vez em quando, / gosta de erros achar.
Então me voltam as cartas / erradas pra consertar.
Vão cartas e vêm cartas, / tal como as ondas do mar.
Ondina, Zenaide e Eunice
Ondina e Zenaide - eram duas irmãs do Rio Grande do Norte, que moravam no Recife, nos anos 1950. Ondina trabalhava no Consulado da Dinamarca (The East Asiatic Company) e quando deixei a SINGER, depois de dois anos de trabalho, entrei nesta firma para secretariar um dinamarquês, que respondia pelo departamento de importação. D. Carina, mãe de Ondina, contava lindas histórias do passado, as quais eu iria usar como material para as crônicas no JORNAL DO COMMERCIO. Passei uma semana santa em casa delas, fazendo pamonhas e trovas, e me diverti a valer. Havia um termo para nossa condição de virgens: estávamos em jejum. A trova de Ondina, naquela semana santa, foi esta, pois estava de flerte com um austríaco:
De Strauss o louro patrício / vai acabar teu calvário.
Bom rapaz, não tem um vício. / É Otto, mas não otário.
Zenaide, que não tinha namorado, ganhou esta:
Que a Virgem Nossa Senhora / te livre de um desengano
e que este jejum de agora / não dure mais outro ano!
Eunice - era minha amiga e companheira de apartamento, no Recife. Além de bonita de corpo, era muito meiga e educada. Moramos juntas durante quase três anos e nunca nos desentendemos - graças a Eunice, que tolerava o meu gênio violento, ria de minhas piadas e vivia descobrindo boas qualidades em mim. Quando fazíamos planos para o futuro, prometi que ela seria madrinha do meu primeiro filho. Cumpri a promessa em 1958, quando Margarete foi batizada por procuração. Quando saíamos juntas, formávamos um contraste. Eunice era gordinha, baixinha e delicada, até no número do sapato, que era 32. Eu era alta, magra e me achava deselegante. Naquele tempo, ser magra era uma desgraça total, pois Audrey Hepburn e Grace Kelly ainda não haviam se tornado célebres. Era a vez de Jane Mansfield, Marilyn Monroe, e outras gordinhas.
Os rapazes nem me olhavam e só faltavam devorar Eunice com os olhos. Às vezes, eu precisava defendê-la da voracidade dos paqueras e ela ria muito do meu desempenho de irmã mais velha. Seu grande amor era o chefe (casado) - no Fomento Agrícola, onde ela trabalhava - e com ele (que mais tarde iria se divorciar) Eunice acabou se casando. Viveram juntos, num lindo apartamento, às margens do Rio Capibaribe. Eunice resolveu estudar LETRAS, depois dos 40 anos, afugentando a solidão que sentia por não ter filhos. Quando, em 1985, passei pelo Recife, vindo de Fortaleza (onde meus familiares ainda moram), fui procurar Eunice. Passamos algumas horas conversando sobre os bons tempos da juventude e ela concordou, finalmente, com a minha definição sobre a vida: "É a saudade de tudo que passou. É a desilusão de tudo que é presente. É a esperança de tudo que é futuro!"
Meu Chefe Inglês no RJ
Eu era secretária bilíngue e trabalhava numa firma inglesa, na Rua do Ouvidor, no centro do Rio de Janeiro. Adorava o meu emprego e mais ainda o chefe solteirão e simpático. Estava me preparando para o exame Lower Cambridge e às vezes lhe pedia ajuda, a qual ele me dava de boa vontade. Um dia, quando me ajudava na leitura e interpretação de um texto, ele perguntou:
- Mary, quem é este autor horrível?
Meu Deus! Era Charles Dickens e o livro, “David Copperfield”! E ainda há quem pense que somente os brasileiros desconhecem os autores nacionais, hem?
Meus Namorados
Nunca fui muito namoradeira. Preferia sonhar com amores platônicos, distantes e impossíveis, em vez de deixar que os rapazes estudassem anatomia em meu corpo. Só tive dois namorados no Rio, antes de conhecer o Schultze. O 1º. foi Álvaro Martini, um perfeito cavalheiro, o qual não consegui amar. Ele era sobrinho do fabricante de bebidas “Martini” (SP) e logo me pediu em casamento. Não aceitei porque ele não me atraía fisicamente, apesar de ser alto, louro e elegante.
O segundo foi um pilantra da pior categoria, gerente de um teatro. Quando ele quis me agarrar, certa noite, em frente ao relógio da Glória, dei-lhe um soco no nariz e o sangue espirrou. Então, ele cuspiu esta frase, que eu jamais esqueci:
- Sua pau-de-arara nojenta. Você só serve mesmo é pra casar...
A coisa estava ficando cada dia mais difícil em matéria de namorado e casamento. Éramos quatro moças morando na Glória: Wilma (que mais tarde seria candidata a Miss Brasil); Solly, que viera do Recife. Maísa, que viera do Crato e eu, a "pau-de-arara nojenta, que só servia mesmo pra casar!" Resolvi agir e fiz uma oração para dizermos todas as noites, antes de dormir:
Senhor! Fazei que o homem mau seja bom. Que o bom seja simpático. E o simpático, solteiro, com saúde e com dinheiro. Amém!
Todas quatro se casaram e eu fui a primeira a desencalhar, já que era a mais velha.
Amigos Especiais
Minha vida de solteira no Rio foi muito agradável. Conheci pessoalmente José Lins do Rego, Malba Tahan, Manuel Bandeira, Henrique Pongetti, Elsie Lessa e outros nomes famosos dos anos 1950.
José Lins do Rego - Eu havia lido “Fogo Morto”, no Recife; descobri que Lins do Rego estava sempre na Livraria José Olímpio (em frente à firma onde eu trabalhava), então fui procurá-lo. Logo ficamos amigos e almoçamos juntos algumas vezes. Certo dia, ele me pediu umas trovas e fiz esta, na hora:
A quem com simplicidade / escreve sobre o sertão,
minha crescente amizade / plena de admiração. //
Pois das terras nordestinas / foi quem melhor descreveu
cangaço, engenho e salinas, / num estilo todo seu!
Lembro-me que ele gostou e disse: “Menina, você pode escrever na revista Cruzeiro, ao lado da Rachel, que não faz vergonha!”
Outro escritor que eu conheci foi Malba Tahan. Almoçávamos juntos às segundas feiras, no restaurante da ABI e ficamos amigos de verdade. Ele foi meu padrinho de casamento. Era um homem elegante, charmoso e um perfeito cavalheiro. Em nossa mesa, na ABI, tínhamos um companheiro muito famoso - o Barão de Itararé - com idade de ser meu avô. Ele gostava de contar piadas e fazia trocadilhos, o tempo inteiro. Certa vez ele disse: “Malba, sou um anticlerical, mas vou comer feijão fradinho, pois, com a fome que eu tenho, paparia até o papa!”.
Manuel Bandeira - Quando o encontrei, pela primeira vez, e declamei para ele o meu “Poema ao Recife”, ele ficou com os olhos marejados e disse: “Você não é cearense coisa nenhuma. É pernambucana e das boas!” Pediu uma poesia e eu fiz uma paráfrase do seu poema “Vou-me Embora Pra Passárgada”, na mesma hora:
Quisera ter uma casa, / bem branquinha e sossegada,
na zona sul de Passárgada.
Quisera ter muitos livros, / uma vaqueira leiteira
e uma rede bem branquinha.
Quisera ter ao meu lado / o ‘Colombo’ do lugar...
Com trinta anos a menos!
Ele sorriu e falou: “Você me chamou de velho e sem a menor cerimônia!”
Depois do casamento com o Schultze, fui morar no bairro Jardim Primavera, onde hoje se encontra a Prefeitura Municipal de Duque de Caxias (RJ) e saí de lá diretamente para este paraíso terrestre, que é Teresópolis (RJ), onde os acéfalos jogadores de futebol estão sempre treinando... Daqui só desejo sair em duas hipóteses:
1. - Ser arrebatada por Cristo, a qualquer momento, quando Ele vier buscar os Seus santos.
2. - Morrer na graça e na paz de Cristo, que excedem todo o entendimento...
Meu Casamento e Frei Mansueto
No dia 19 de abril de 1956, aconteceu o casamento da atriz Grace Kelly com o Príncipe Rainier de Mônaco. Estávamos reunidas as quatro moças no apartamento da Glória, comentando o casamento da famosa atriz, quando eu disse:
- Pra mim, só mesmo um tipo assim. Viu, gostou e casou. Se não aparecer um "príncipe" para me tirar deste "jejum", vou morrer solteira.
Dez dias depois, no domingo, 29/04/1956, fomos passear em Jardim Primavera, o bairro nobre de Duque de Caxias (RJ). Este bairro de Caxias fica no Km. 14 da Estrada Rio-Petrópolis, onde hoje está localizada a Prefeitura da cidade. Eu havia escrito uma crônica no Jornal “O Diário” de Ribeirão Preto (SP), sobre o pianista precoce Roberto Fuchs, e a família dele me convidou para um fim de semana. Dr. Plínio e Miguel (dois amigos da família Fuchs, que eu havia conhecido em S. Paulo) foram conosco. Éramos cinco pessoas: Solly, Maísa, Dr. Plínio, Miguel e eu. Quando chegamos à bela residência dos Fuchs, (ainda hoje a casa mais bonita do bairro), havia uma porção de gente na piscina. Fomos apresentados a um químico alemão - HANS SCHULTZE - hóspede da casa. Depois do almoço, todos foram jogar pingue-pongue no Clube Primavera e eu fiquei sozinha, escutando alguns long-plays de música erudita, no salão da casa. O hóspede alemão dos Fuchs foi se chegando e tentou conversar comigo, mas o seu Português era péssimo, o seu Inglês era pior ainda e o meu Alemão simplesmente não existia! Mas a música nos aproximou e houve entendimento bastante para eu lhe dar o número do meu telefone e o endereço do trabalho.
Quando eu ia saindo, perguntei o seu nome, que não o havia gravado na apresentação: Hans Georg Max Paul Schultze. Pedi lápis e papel e escrevi-o, certinho, deixando-o perplexo, pois era a primeira pessoa no Brasil capaz de tal façanha. Na mesma hora, ele me pediu em casamento. E eu aceitei, oxente!
No dia 1° de maio, aproveitando o feriado, ele desceu ao Rio e tentou me localizar. Não o conseguiu e deixou um recado com D. Mira Fuchs, dizendo que estava muito interessado em mim. Na sexta feira, o Schultze já me esperava, na saída da Mappin & Webb e, uma semana depois, ele me colocou no dedo uma aliança de noivado. Foram quatro meses e dois dias entre o 1º. encontro e o casamento católico, no altar na igrejinha de São Judas Tadeu, em Jardim Primavera. Seu primeiro presente para mim foi a ópera "Madame Butterfly”, de Puccini, e seu primeiro beijo foi na hora de colocar a aliança em minha mão direita. A ópera que nos aproximou, na casa dos Fuschs, foi “A Casa das Três Meninas”, de Schubert-Berté.
Nossos padrinhos de casamento católico foram a poetisa Nancy Martha e o escritor Malba Tahan. Frei Mansueto Kohnen oficiou a cerimônia religiosa. No dia do casamento civil, em Caxias, vendo que todos os outros casais eram de cor, o noivo começou a mostrar o seu senso de humor:
- Minha querida, de todos os noivos que estão aqui, só você e eu não temos cabelo de bombrrril!
Quando nos casamos, toda a fortuna do Schultze era um envelope contendo 300 dólares e a minha, uma conta com Cr$ 8.000,00 no então Banco da Lavoura de Minas Gerais. Depois de gastas estas economias com a festa do casamento, a entrada dos móveis e parte do nosso enxoval, ficamos vivendo do seu salário que não era alto. Mas gostávamos tanto de nossa vida a dois, que não sentíamos falta das atrações do mundo. Em nossa estante, havia muitos livros em Português, Inglês e Alemão. Tínhamos um toca-discos e uma coleção de boa música, e isto representava o paraíso. Aqueles foram os melhores anos de nossa vida e a lembrança daquele amor, que nos plenificava o coração, seria um escudo protetor, em nossas horas de crise conjugal, no futuro...
Frei Mansueto - Era um frade alemão, amigo do Schultze, professor de Língua e Literatura Alemã nas duas Universidades do Rio de Janeiro. Gostava muito de beber chope e ninguém podia competir com ele na quantidade de copos. Uma semana antes do casamento, Frei Mansueto me perguntou:
- Mary, você já dormiu com o noivo?
Respondi que no Ceará as moças se guardam para a noite de núpcias e eu não tinha pressa. Mas ele explicou:
- Não é por mal. Vou lhe dar um aviso para poupar desilusão em sua noite de núpcias. Não espere um bom desempenho do noivo, nessa noite. Ele gosta muito de chope e, na certa, vai abusar. E você sabe... Depois, não dá mesmo!
Fez o casamento, divertiu-se à vontade e, quando ia saindo, à meia noite, cheio de Brahma, falou:
- Eu avisei, não foi? O Schultze já não se aguenta em pé. Vamos botá-lo na cama e você, vá dormir também, que o dia hoje foi de lascar!
Tensa e decepcionada, deitei-me na cama ao lado (tínhamos camas separadas, por comum acordo) e tentei dormir. Mas não o consegui. Então, algo me dominou: a mania de ordem e limpeza. Levantei, fiz uma boa faxina em toda a casa e, quando me deitei novamente, os galos da vizinhança já anunciavam o amanhecer do meu primeiro dia de casada!
Por todos os anos futuros, meu marido iria sempre dizer que me admirava pela capacidade de trabalho e compreensão. Mas, o que poderia fazer uma noiva, na noite de núpcias, com um noivo fora de combate? Sempre que tenho um limão disponível, conforme Dale Carnegie ensina em seu livro “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, que li na juventude, faço uma limonada.
Algumas estórias sobre o Schultze
O carneiro - Depois de uma semana de casados, vendo que eu só lhe fornecia enlatados, o Schultze perguntou:
- Você não vai ao carneiro?
E quando pedi explicação, ele disse:
- Porque você não compra carne!
A cobra - Quando pretendíamos assistir ao show do mágico Kalanag, ele se desculpou por não ter conseguido os ingressos:
- Eu ia comprar os bilhetes, mas tinha uma cobra muito grande na porta do teatro e eu desisti, para não chegar atrasado ao nosso encontro.
Depois é que fui entender que "fila" e "cobra" são a mesma palavra em Alemão: Schlange.
O Beijo - Já estávamos casados, quando, certo dia, entramos no Bar Primavera, para almoçar. Era domingo e a colônia alemã (muito numerosa na época) estava reunida em peso. Otto Hopfinger, o dono do restaurante, veio nos receber, na maior euforia; pegou-me de jeito e me beijou na boca. Fiquei sufocada e furiosa, enquanto meu marido olhava a cena sorrindo.
- Você viu esse alemão sujo me beijando na boca e não me defendeu?
- Para mim um amigo que beija minha esposa me faz um cumprimento.
- É, bichinho! Se fosse minha mãe que ele tivesse beijado, meu pai teria enfiado uma peixeira na barriga dele!
A exibição do Modess - Ele não conhecia os absorventes da Johnson. Fomos juntos ao Rio para as compras de sábado e, como eu estivesse “naqueles dias”, coloquei um absorvente embrulhado em papel de seda, dentro da pasta dele. Na loja de laticínios, cheia de empregados, ele abriu a pasta para tirar a carteira, viu o embrulho, abriu-o, levantou o conteúdo e perguntou-me candidamente:
- Para que você trouxe este travesseirinho dentro da minha pasta?
Muitos anos depois, ainda continuava desligado do assunto, pois quando lhe pedi para comprar um pacote de “Sempre Livre”, ele saiu repetindo para não esquecer: “Deus me livre, Deus me livre, Deus me livre”.
A Propaganda - Em nosso primeiro aniversário de casamento, lembrado por mim, naturalmente, o Schultze comprou um vidrinho de “Heur Intime” e mo deu de presente. À noite, tomei um banho daqueles, gastei metade do perfume, usei a camisola de renda mais transparente do Ceará e falei:
- Meu querido, olha como eu estou cheirosa!
- Está sim, muito cheirrrosa. Mas não adianta fazer prrropaganda, porque eu estou muito cansado. Boa noite.
Dia do Trabalho (estória contada por Frei Mansueto)
Fritz e Gerda se casaram num sábado, 24 de abril e tiveram sua noite de núpcias. Depois passaram-se o domingo, a segunda, a terça e a quarta feira; Fritz se esqueceu de procurar a esposa. Gerda não entendia essa ausência e, na quinta feira, à noite, preparou-se especialmente para seduzir o marido e pediu:
- Fritz, vem dormir comigo, hoje!
- Querida, hoje é quinta feira e o nosso dia de fazer amor é sábado, não se lembra?
No dia seguinte, Gerda fez nova tentativa:
- Fritz, hoje é sexta feira e amanhã podemos acordar mais tarde. Vem cá, meu amor!
- Querida, não seja impaciente. Só falta um dia, certo?
Chegou, finalmente, a noite de sábado; Gerda vestiu a mais linda camisola de nylon importada da França, usou um perfume francês e ficou aguardando a reação do marido.
Fritz vestiu o pijama, deitou-se, ficou lendo durante uma hora, depois virou para o lado oposto e adormeceu, placidamente. Gerda indignou-se:
- Idiota, cretino! Será que esqueceu que hoje é sábado?
- Mas Gerda, você e tão distraída! Não sabe que hoje é Dia do Trabalho e, portanto, é feriado?
A visita de Deus - (Outra estória do Frei Mansueto).
Quando Berlim estava sendo bombardeada pelos ingleses, a professora pediu a cada aluno que descrevesse o dia anterior, já que o amanhã talvez nunca existisse para os berlinenses. Um menino de oito anos contou:
- Os bombardeios de ontem foram muito interessantes. Mas o melhor foi a visita de Deus à nossa casa.
E quando a professora pediu explicação, ele disse:
- Eu já estava quase dormindo, quando ouvi minha mãe falar: “Dois bombardeios, hoje, e agora vem você, meu Deus!”
A Chave - (mais uma do Frei Mansueto) Dois namorados estavam se beijando numa praça, quando o rapaz notou que um homem estava acenando, insistentemente, para eles, do outro lado da rua. Não deu importância, mas o homem não desistiu; então ele foi ver do que se tratava.
- O que deseja cavalheiro?
- Desculpe, senhor. Eu não queria atrapalhar. Mas a moça que está com o senhor é minha esposa. Esqueci a chave da casa e vim pedir a dela emprestada.
AS PRIMEIRAS VIAGENS
Um ano após o casamento (já sem prestações a pagar), começamos a pensar no futuro. Compramos um terreno industrial com 2.400 metros quadrados - onde construímos a casa e o laboratório, num espaço de cinco anos de muita luta. O terreno seria pago em 120 meses. Pagando aluguel, prestação dos móveis, do terreno, etc., nunca sobrava dinheiro para eu comprar um vestido. Resolvi dar aulas de Inglês, para ajudar no orçamento, até a vinda do primeiro bebê. Margarete nasceu, quinze meses após o casamento, e foi o mais lindo bebê que Deus criou, na década de 50, quando tudo ainda era tão maravilhoso no mundo!
Margarete nos daria alguns sustos, na adolescência, e muitas alegrias, mais tarde, com o seu tremendo senso de responsabilidade e capacidade de amar.
Em 1961, nossa situação financeira melhorou e começamos a pensar em viagens. Principiamos pelo Nordeste, visitando Salvador, Recife. Fortaleza e Crato, onde moravam meus pais. Daí em diante, nossas viagens eram anuais, aproveitando as férias do Schultze e, mais tarde, as da Margarete. Visitávamos o Norte e o Nordeste, e íamos a Belo Horizonte, Caxambu e São Paulo uma vez por ano, em viagem de férias e negócios.
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